Por Dra. Pilar | Pediatra e Alergista Infantil
O verão é sinônimo de sol, férias e diversão ao ar livre. No entanto, para crianças e famílias que convivem com a dermatite atópica, essa estação pode trazer desafios extras. O calor intenso, a exposição solar e, principalmente, o suor excessivo podem desencadear ou agravar significativamente as crises de coceira e irritação na pele.
Uma dúvida muito comum no meu consultório é: “Doutora, meu filho tem alergia ao suor?”. Neste artigo, vou esclarecer esse conceito, explicar de forma detalhada por que o suor piora a coceira na dermatite atópica e, o mais importante, trazer dicas práticas e baseadas em evidências para que seu filho possa aproveitar o verão com mais conforto e menos desconforto.
O que é a Dermatite Atópica e Por Que o Verão é um Desafio?
A dermatite atópica é uma condição inflamatória crônica da pele, caracterizada por uma barreira cutânea comprometida. Isso significa que a pele perde água com mais facilidade (ressecamento) e fica mais vulnerável à penetração de agentes irritantes, alérgenos e microrganismos.
No verão, alguns fatores se somam a essa fragilidade:
- Calor e Suor Excessivo: O principal gatilho que abordaremos.
- Cloro de Piscinas: Pode ressecar e irritar a pele.
- Areia da Praia: Pode causar atrito mecânico e carregar impurezas.
- Protetores Solares: Algumas fórmulas, especialmente as não específicas para peles sensíveis, podem conter fragrâncias ou conservantes irritantes.
Dentre todos, o suor merece atenção especial por seu papel direto e frequente no agravamento dos sintomas.
“Alergia ao Suor”: Mito ou Verdade?
É muito comum ouvirmos queixas de “alergia ao suor”. No entanto, do ponto de vista médico-imunológico, não se trata de uma alergia verdadeira, como ocorre com pólen ou alimentos.
O que acontece é uma reação de irritação ou intolerância. A pele com dermatite atópica já está inflamada e com sua função de barreira prejudicada. Quando o suor entra em contato com essa pele sensibilizada, seus componentes – como sais (cloreto de sódio), ureia e ácido lático – atuam como irritantes químicos diretos.
Portanto, a sensação de ardência, formigamento e coceira intensa que surge com o suor é, na verdade, um sinal de irritação em uma pele já vulnerável, e não uma reação alérgica clássica mediada por anticorpos IgE.
Por Que o Suor Piora Tanto a Coceira na Dermatite Atópica?
O mecanismo pelo qual o suor agrava a dermatite atópica é multifatorial. Vamos destrinchá-lo:
1. Irritação Química e Alteração do pH
Conforme mencionado, os componentes do suor são irritantes potenciais. Além disso, o suor tende a ter um pH mais alcalino, enquanto a pele saudável mantém um pH levemente ácido (em torno de 5,5). Essa alteração pode desequilibrar a microbiota cutânea (o conjunto de microrganismos benéficos da pele), favorecendo a proliferação de bactérias patogênicas, como o Staphylococcus aureus, que é frequentemente encontrado em maior quantidade nas lesões de dermatite atópica e piora a inflamação.
2. Efeito Oclusivo e “Brotoeja” (Miliária)
O suor em excesso, especialmente em áreas de dobras (como atrás dos joelhos, cotovelos e pescoço), pode obstruir os ductos das glândulas sudoríparas. Isso impede a saída do suor, que fica retido sob a pele, formando pequenas bolinhas vermelhas e com muita coceira – a popular brotoeja ou miliária. Para uma criança com dermatite atópica, isso é um gatilho a mais para o ciclo “coceira-coçar-lesão”.
3. Perda de Água Transdérmica e Ressecamento
Pode parecer contraditório, mas o suor pode contribuir para o ressecamento. Quando o suor evapora da superfície da pele, ele pode arrastar consigo parte da água natural da pele, especialmente se a barreira já estiver comprometida. Esse ressecamento pós-suor deixa a pele ainda mais áspera e pruriginosa.
4. Atrito e Maceração
A pele úmida pelo suor fica mais sujeita ao atrito com a roupa, o que por si só é um irritante. Em dobras, a umidade constante pode levar à maceração (amolecimento da pele), tornando-a ainda mais frágil e susceptível a fissuras e infecções secundárias.
5 Dicas Práticas para Controlar o Impacto do Suor no Verão
A boa notícia é que, com alguns cuidados, é possível minimizar esses efeitos e garantir um verão mais tranquilo:
- Hidratação Intensa e Correta: Este é o pilar do controle. Use hidratantes específicos para dermatite atópica (emolientes) pelo menos 2 vezes ao dia. Aplicar com a pele ainda úmida após o banho potencializa o efeito de reconstituição da barreira.
- Banhos Rápidos e Mornos: Após atividades que causem suor, opte por um banho rápido (5-10 min) com água morna. Use sabonetes syndet (sem sabão) ou líquidos específicos para pele atópica, que limpam sem agredir. Seque a pele com toalhas macias, dando leves toques, sem esfregar.
- Vestuário Adequado: Prefira roupas 100% de algodão, leves, soltas e de cores claras. Evite tecidos sintéticos, lã ou jeans, que retêm calor e suor. Troque as roupas úmidas de suor imediatamente.
- Ambiente Fresco e Arejado: Mantenha os ambientes em casa bem ventilados. Use ventiladores ou ar-condicionado (com cuidado para não direcionar o fluxo de ar diretamente para a criança e manter a hidratação do ar) para evitar o suor excessivo durante o sono e repouso.
- Compressas Frias para Alívio Imediato: Em momentos de coceira intensa pós-suor, compressas de gaze ou pano limpo embebidas em água fria aplicadas sobre as áreas afetadas por alguns minutos podem trazer alívio significativo sem medicamentos.
Conclusão: Acompanhamento é Fundamental
O verão não precisa ser um período de sofrimento para a criança com dermatite atópica. Entender que a “alergia ao suor” é, na realidade, uma irritação em uma pele sensibilizada é o primeiro passo para um manejo correto.
Implementar uma rotina consistente de hidratação, adotar hábitos de refrescamento e escolher tecidos adequados fazem uma diferença enorme na qualidade de vida.
Lembre-se: cada caso de dermatite atópica é único. Se as crises de coceira forem frequentes, intensas ou causarem muito desconforto, busque acompanhamento com um pediatra ou alergista infantil. Somente o profissional que acompanha seu filho poderá indicar o plano de tratamento mais adequado, que pode incluir medicações tópicas ou sistêmicas para controlar a inflamação e quebrar o ciclo da coceira, permitindo que todos aproveitem o melhor do verão.
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Dra. Pilar
Pediatra e Alergista Infantil
Especializada em Dermatite Atópica, Rinite Alérgica e Alergia Alimentar
